Os planos do tipo VGBL (Vida Gerador de Benefício
Livre), tipo de previdência privada no Brasil, focada em acumulação de
patrimônio para a aposentadoria, concentraram a maior parte da movimentação,
respondendo por 91% da captação bruta e 88% das provisões técnicas
A previdência
privada aberta registrou queda acentuada na captação líquida em 2025, apesar da
manutenção do volume de planos e do crescimento do patrimônio administrado. De
acordo com o Dashboard de Imprensa da Federação Nacional de Previdência Privada
e Vida (Fenaprevi), entre janeiro e outubro do ano passado, a captação líquida
somou R$ 4,2 bilhões, recuo de 91,8% em relação ao mesmo período de 2024. No
acumulado, os resgates alcançaram R$ 128,2 bilhões, superando a captação bruta
de R$ 132,4 bilhões.
Em outubro do ano
passado, o setor apresentou captação líquida negativa de R$ 3,1 bilhões. No
mês, os aportes totalizaram R$ 10,4 bilhões, queda de 33,8% na comparação
anual, enquanto os resgates atingiram R$ 13,5 bilhões, alta de 11,1%. O
movimento reflete maior volume de saídas, em um cenário de redução do ritmo de
contribuições.
Mesmo com a retração
financeira, o número de planos permaneceu elevado. Naquele mês, a previdência
privada aberta contava com 13,6 milhões de planos ativos, sendo 10,8 milhões
individuais e 2,8 milhões coletivos. O total de participantes, considerando
CPFs únicos por sociedade supervisionada, chegou a 11,1 milhões. O patrimônio
do setor atingiu R$ 1,7 trilhão no mesmo período.
Os planos do tipo
VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre), tipo de previdência privada no Brasil,
focada em acumulação de patrimônio para a aposentadoria, concentraram a maior
parte da movimentação, respondendo por 91% da captação bruta e 88% das
provisões técnicas. As contratações individuais representaram 91% dos aportes
realizados no mês. Entre os resgates, 53% foram parciais e 47% totais.

No segmento de
seguro de pessoas, os dados apontam crescimento. Entre janeiro e setembro de
2025, os prêmios arrecadados somaram R$ 58,6 bilhões, alta de 8,8% em relação
ao mesmo intervalo do ano anterior. Os sinistros pagos alcançaram R$ 12,99
bilhões, avanço de 7,4%, enquanto as despesas de comercialização totalizaram R$
17 bilhões, com aumento de 19,6%.
A cobertura de vida
respondeu por quase metade dos prêmios emitidos no período, com R$ 28,13
bilhões, crescimento de 11,8%. O seguro prestamista movimentou R$ 16,28
bilhões, seguido por acidentes pessoais, com R$ 7,21 bilhões. Entre os
sinistros, o seguro de vida concentrou R$ 6,81 bilhões pagos até setembro.
Apesar da
desaceleração nos números ao longo de 2025, o mercado de previdência privada
segue em trajetória de crescimento estrutural e mantém relevância como
instrumento de planejamento financeiro de longo prazo. A avaliação é de João
Batista Mendes Ângelo, dirigente estatutário da Fenaprevi, que atribui a
retração recente principalmente ao impacto da tributação sobre aportes
introduzida no início do ano.
Segundo Ângelo,
quando analisada em perspectiva histórica, a previdência privada apresenta
expansão consistente. "Se olharmos os últimos 10 anos, esse mercado cresce
em média cerca de 8% ao ano e avança em ritmo superior ao do PIB",
afirmou. De acordo com ele, o volume de reservas acumuladas em 2024 era aproximadamente
o dobro do registrado em 2014.
O diretor destaca
que o aumento da longevidade alterou a forma como as pessoas encaram a
aposentadoria. "Hoje, uma pessoa de 70 anos continua ativa. Muitas vezes,
não se trata de parar de trabalhar, mas de fazer uma transição de carreira, com
atividades pontuais e menor renda, trabalhos mais pontuais que talvez não gerem
aquela mesma renda que a pessoa tinha no período ativo. Então, será preciso
complementar essa renda para manter o padrão de vida", explicou.
Perfil
A principal pressão
negativa sobre os resultados em 2025, segundo Ângelo, veio da mudança
tributária que incidiu sobre os aportes. Para ele, a medida reduziu o incentivo
ao uso da previdência como instrumento de poupança de longo prazo. "É como
largar alguns passos atrás na corrida. O investidor tende a resistir quando vê
um recurso já disponível ser novamente tributado", afirmou.
Ainda assim, o
executivo ressalta a flexibilidade dos planos como um dos diferenciais do
setor. Para ele, a estrutura básica dos produtos é a mesma, mas permite
configurações distintas conforme o perfil do investidor, variando de
estratégias conservadoras a mais arrojadas. Há, inclusive, planos específicos
para menores de idade, geralmente associados a objetivos como custear estudos
no início da vida adulta.
João Batista Mendes
Ângelo também reforça que a previdência privada não substitui o sistema
público. "O conceito é de suplementação. Nossa ideia não é que a pessoa
deixe de contribuir com o INSS", disse. Ele destaca ainda a rigidez regulatória
do setor, supervisionado pela Superintendência de Seguros Privados (Susep), que
tem exigências de reservas e mecanismos de diversificação que reduzem riscos.
Outro ponto citado foi a possibilidade de migração entre fundos dentro do plano
sem incidência tributária durante o percurso, o que amplia a gestão estratégica
do investimento.
Sobre o perfil dos
participantes, o diretor observa que a maior concentração ainda está acima dos
40 anos, mas há expectativa de maior adesão entre os mais jovens. "Essa
geração vê pais e avós vivendo mais e começa a perceber que precisará planejar
como financiar uma vida mais longa", frisou.
De acordo com ele,
cerca de 80% desses aportes decorrem de eventos pontuais, como heranças,
participação nos lucros ou venda de imóveis, e não indicam, necessariamente, um
público de alta renda contínua. "Quando o governo introduz no começo deste
ano uma taxação, uma tributação sobre o aporte financeiro, isso afeta
dramaticamente toda essa dinâmica. O que mudou foi o incentivo ou o desincentivo
ao uso do veículo para essa finalidade", explicou, enfatizando que esse
foi o principal motivo da queda de aportes registrados em 2025.
O assessor de
investimentos Leonardo Rocha Fernandes, por sua vez, diz que o fator que mais
impulsiona a busca pela previdência privada é a percepção de que depender
exclusivamente do INSS não garante a manutenção da renda na aposentadoria.
Segundo ele, a maior parte da população perde poder de compra ao deixar o
mercado de trabalho.
"Chega um
momento em que a renda cai e os custos aumentam, com despesas médicas, planos
de saúde mais caros e, em alguns casos, a necessidade de cuidadores. Mas de
novo, o principal fator é não depender do INSS, construir sua própria
aposentadoria no momento em que você vai necessitar de mais recurso do que o
que você tem de renda atualmente. Perder o padrão de vida é uma situação muito
ruim", enfatizou.
Leonardo explica
ainda que a previdência privada também atende a demandas de planejamento
tributário, sucessório e financeiro. Ele aponta que o produto se tornou uma
ferramenta acessível, com possibilidade de aportes baixos, o que amplia o
público interessado. "Além de não depender do INSS, muitas pessoas usam a
previdência para organizar sucessão e reduzir impactos tributários."
Opções
Sobre os tipos de
planos, o assessor detalha que o mercado opera basicamente com PGBL (Plano
Gerador de Benefício Livre), e VGBL, combinados aos regimes de tributação
progressivo ou regressivo. Ele ressalta que mudanças recentes na legislação
ampliaram a flexibilidade. "Hoje, a pessoa pode escolher o regime de
tributação no momento do resgate, o que reduz o risco de uma decisão equivocada
no início do plano", explicou.
Ao diferenciar os
produtos, Leonardo Rocha pontua que o VGBL funciona de forma semelhante a um
investimento tradicional, com imposto incidindo apenas sobre o rendimento,
enquanto o PGBL oferece benefício fiscal na fase de contribuição. "O PGBL
é indicado para quem faz declaração completa do Imposto de Renda e contribui
para o INSS, pois permite limitar até 12% da renda tributável", disse.
Para ele, esse modelo pode gerar ganho financeiro ao longo do tempo,
especialmente quando combinado com o regime regressivo.
O assessor destaca
ainda os benefícios sucessórios da previdência privada. De acordo com ele,
tanto PGBL quanto VGBL não entram em inventário, permitindo a transferência
direta dos recursos aos beneficiários indicados. Ele avisa que a escolha do
plano não depende da idade, mas da forma de renda e do regime de trabalho.
"O critério principal é se a pessoa tem imposto retido na fonte e faz
declaração completa ou não."
Ao comentar a
evolução do setor, afirma que a previdência privada passou a oferecer uma gama
ampla de fundos, com perfis que vão da renda fixa a estratégias mais arrojadas.
Ele alerta, porém, para erros comuns. "Muitas pessoas escolhem
corretamente o plano e a tributação, mas permanecem em fundos com baixa
rentabilidade por desconhecimento", afirmou.
O especialista
também chama atenção para a possibilidade de portabilidade entre fundos sem
custo tributário. Segundo ele, essa característica permite ajustes ao longo do
tempo. "A previdência não é um cofrinho parado; ela precisa ser
acompanhada e ajustada para gerar resultado. Tem que rentabilizar, tem que
gerar resultado financeiro. Então, eu sugiro ao investidor passar a conhecer um
pouco mais, e procurar um profissional de confiança que possa auxiliar ele
nisso", concluiu.
A longo prazo
Elter Rodrigues,
estudante de engenharia da computação, 20 anos, relata que iniciou sua trajetória
como investidor ainda jovem, priorizando produtos de renda fixa. "Comecei
investindo em CDB e LCI, buscando segurança e rentabilidade mensal",
contou. Antes de usar a previdência privada, ele utilizava caixinhas oferecidas
por bancos digitais, que, segundo ele, apresentavam rentabilidade ligeiramente
superior à dos CDBs tradicionais.
A decisão de
investir cedo, segundo Elter, esteve associada ao planejamento de longo prazo.
"O principal fator que me motivou a investir cedo foi a possibilidade de
antecipar a aposentadoria e aproveitar o efeito dos juros compostos ao longo do
tempo", disse. Essa perspectiva também influenciou a inclusão da
previdência privada em sua estratégia financeira, vista como complemento ao
sistema público. "Passei a considerar a previdência privada por vê-la como
um complemento ao INSS, especialmente porque pretendo me aposentar mais
cedo", explicou.
"Na escolha,
avaliei principalmente o prazo do investimento, a tabela regressiva de
tributação, o histórico de rentabilidade, os prazos de resgate e as taxas
cobradas, especialmente a taxa de administração, que impacta bastante no longo
prazo", afirmou Elter.
Sobre as
expectativas futuras, Elter aponta a busca por estabilidade. "Espero que
esse investimento gere uma renda complementar estável no futuro, contribuindo
para maior segurança financeira na aposentadoria."
O estudante também
comenta que pretende ajustar a estratégia ao longo do tempo. "Reavalio a
cada semestre para manter uma estratégia concisa, considerando tanto meu
cenário pessoal quanto o do país", afirmou.
Fonte: Correio Braziliense