Debatedores apontam
dificuldades de adultos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no mercado de
trabalho
Debatedores convidados pela Comissão de Direitos Humanos (CDH)
afirmaram que preconceito e falta de acessibilidade são obstáculos para pessoas
autistas se inserirem no mercado de trabalho.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF),
presidente da Comissão de Direitos Humanos (CDH), afirmou que os patrões têm
medo de empregar pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) com base em
falsos pressupostos, relacionados por exemplo às crise sensoriais e à
capacidade de relacionamento.
- [Os autistas] estão prontos para o mercado
de trabalho, nós que não estamos prontos para receber. Eu não vejo nenhum
patrão com medo de empregar uma pessoa em cadeira de rodas, mas há um mito em
torno da pessoa com autismo que temos que derrubar - disse a senadora.
O Censo de 2022 do IBGE identificou 2,4 milhões de pessoas
diagnosticadas com autismo no Brasil, o que corresponde a 1,2% da população. Os
debatedores consideraram os dados oficiais sobre a taxa de empregabilidade de
pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) escassos.
Desafios
Representante do Ministério de Direitos Humanos e da Cidadania,
Priscilla Selares apontou o preconceito como um dos principais obstáculos para
empregar pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Somam-se à lista de
barreiras a falta de previsibilidade - que pode gerar ansiedade em autistas -,
as dificuldades de comunicação e os processos seletivos inadequados. A solução
é adaptar o ambiente, disse Selares.
- [Adaptar]. Seja com a disponibilização de abafadores de ruído, de
óculos para quem tem uma maior sensibilidade à luz, não ter que arrastar alguma
coisa sem um aviso prévio.
A presidente da Associação Inclusiva, Luciana Mendina, avaliou que
as leis de inclusão brasileiras já funcionam e que é papel dos colegas de
trabalho acolher pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
- A gente precisa de empatia e tomar um cafezinho [com o colega
autista] e conviver. Não existe lei que substitua o contato humano.
Desde 2012 o Brasil possui a Política Nacional de Proteção dos
Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA), e, desde 2015, a
Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência.
Lei de Cotas
Pessoas autistas têm direito a ser contratadas nas vagas de cotas
para pessoas com deficiência, lembrou a auditora fiscal do trabalho Luciana
Xavier Sans de Carvalho. As cotas previstas na Lei 8.213, de 1991 são exigidas
para empresas com mais de 100 funcionários.
- Temos que lutar com unhas e dentes pela Lei de Cotas e nunca
permitir o retrocesso. Infelizmente, surgem com muita frequência projetos de
lei que a esvaziam. Temos que, talvez, até lutar para que ela seja expandida.
Empresas sem esse porte ainda vivem uma exclusão praticamente total - disse.
Coordenadora de inclusão do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE)
em Santa Catarina, Carvalho afirmou que há, atualmente, "cerca de 1 milhão de
vagas, e dessas, ainda, não há 600 mil pessoas com deficiência incluídas".
Representante do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Jessevanda
Galvino ressaltou que autistas que procuram emprego ocultam sua condição
prevendo preconceito dos empregadores. O Sistema Nacional de Emprego (Sine),
que intermedia vagas de trabalho e trabalhadores, exige que o candidato informe
sua deficiência para concorrer às cotas.
Relatos
Autistas convidados pela comissão relataram episódios em que o
Transtorno do Espectro Autista (TEA) foi mal compreendido ou até discriminado
no ambiente de trabalho. O neuropsicanalista Omar Heart afirmou que a
empregabilidade é o maior desafio do grupo atualmente.
- Conheço um autista de 21 anos de idade que entrou em crise
sensorial no trabalho dele. Passou uma ambulância com a sirene. O que fizeram
foi chamar a polícia e o algemaram, porque ele estava agressivo. Resumo da
história: foi demitido por justa causa.
O empresário Thomas Strauss afirmou que "praticamente todo autista
tem hiperfoco" em determinadas áreas de seu interesse e que por isso podem
"desempenhar um trabalho brilhante". Strauss destacou que a organização social
dinamarquesa Specialisterne faz esse alinhamento profissional em 23 países.
- Hoje o [banco] Itaú, com apoio da Specialisterne, tem por volta
de 300 pessoas fazendo trabalhos brilhantes. Muitos funcionários do Itaú que
eram autistas e não se declaravam passaram a ver que a empresa os acolhia e
passaram a se identificar como autistas.
Fonte: Agência Senado,
com edição do texto pela M&M
Assessoria Contábil