Comércio popular aposta no aumento da demanda
por itens temáticos, mas lojistas formais enfrentam pressão de produtos
irregulares, mais baratos e cada vez mais semelhantes aos originais
À medida que a
Copa do Mundo aquece as vendas no comércio popular, um velho dilema reaparece
no varejo: como comerciantes que atuam dentro da legalidade conseguem competir
com produtos irregulares vendidos a preços muito inferiores justamente no
período de maior demanda por itens temáticos do Mundial?
Uma recente blitz contra produtos falsificados na
região do Brás reacendeu a preocupação de empresários do setor, que veem nos
grandes eventos esportivos um aumento da concorrência considerada desleal.
Enquanto lojistas regularizados arcam com tributos,
encargos trabalhistas, custos de formalização e, em muitos casos, licenciamento
de produtos, as mercadorias sem autorização chegam ao consumidor por valores
significativamente inferiores, pressionando toda a cadeia formal do setor.
Na avaliação de especialistas do setor, a questão
deixou de ser um problema localizado de regiões tradicionalmente associadas à
informalidade, como o Brás e a Rua 25 de Março, e passou a refletir um mercado
ilegal mais amplo, impulsionado também pelo ambiente digital e pelas vendas em
plataformas online.
Para Lauro Pimenta, vice-presidente da Associação
de Lojistas do Brás (Alobrás), "a venda de produtos não licenciados compromete
diretamente a indústria nacional porque reduz a competitividade dos produtos
desenvolvidos no país. Isso porque ela se apropria de mercadorias patenteadas,
de modelos já consolidados no mercado, e simplesmente replica esses produtos."
"As réplicas normalmente são feitas por pessoas sem
registro formal. A pirataria não registra, não pode deixar rastros. Além disso,
ela acaba devorando a criatividade da indústria nacional, porque desestimula a
criação de novos modelos de produtos autorais desenvolvidos pela nossa
indústria", diz.
Para os lojistas formais, o prejuízo aparece na
concorrência desigual. "Isso acontece porque as pessoas tendem a se inclinar
para modelos já consolidados globalmente, impulsionados por grandes marcas,
vitrines e atletas que tornam esses produtos mais desejados", completa.
Pimenta ressalta ainda que o mercado ilegal também
mudou de perfil nos últimos anos, ficando cada vez mais próximo do original,
mais sofisticado, porque os produtos estão muito mais semelhantes aos modelos
autênticos.
O vice-presidente da Alobrás pondera, porém, que há
diferença entre inspiração e cópia. Usar cores, referências visuais e
tendências de marcas consolidadas pode até estimular a indústria local e
impulsionar novos produtos, desde que não haja reprodução fiel ou plágio. "A
criatividade e a inspiração são válidas, desde que não configurem cópia."
Para Claudia Urias, diretora executiva da
Univinco25, a região da Rua 25 de Março é formada, em sua grande maioria, por
comerciantes formais, empresas legalizadas e lojistas que trabalham dentro das
normas, gerando empregos, recolhendo impostos e movimentando a economia da
cidade de São Paulo.
"A Univinco25 entende que o comércio regular é
fundamental para o fortalecimento da região e para a manutenção de um ambiente
comercial organizado e competitivo. Os lojistas que atuam de forma correta
investem diariamente em seus negócios, estrutura e atendimento ao consumidor."
Com relação à pirataria, Claudia defende que cabe
aos órgãos públicos competentes realizar as fiscalizações e adotar as medidas
necessárias contra práticas ilegais, garantindo equilíbrio para os comerciantes
que atuam dentro da legalidade.
Números
A preocupação do setor também aparece nos números
da ilegalidade no país, que avançou nos últimos anos e ampliou os impactos
sobre a indústria e o varejo formal.
Levantamento do Fórum Nacional Contra a Pirataria e
a Ilegalidade (FNCP) aponta que o Brasil registrou R$ 468,3 bilhões em
prejuízos em 2024, decorrentes de contrabando, falsificação, pirataria e outras
formas de comércio ilegal. O montante inclui perdas diretas da indústria e do
comércio, além da evasão fiscal.
Do total estimado, cerca de R$ 327,8 bilhões
correspondem a perdas dos setores produtivos, enquanto aproximadamente R$ 140,4
bilhões referem-se à sonegação de impostos, reduzindo recursos públicos e
ampliando a concorrência considerada desleal por empresários do comércio
formal. Em 2023, as perdas somaram aproximadamente R$ 441 bilhões, indicando
avanço da ilegalidade no país.
Entre os setores
mais afetados estão vestuário, produtos esportivos, eletrônicos, brinquedos,
cosméticos, perfumes, cigarros, bebidas e autopeças - justamente os segmentos
que costumam ganhar impulso em períodos de Copa do Mundo.
Zona cinzenta
Mas a disputa atual não ocorre apenas entre o
produto oficial e a falsificação direta. Especialistas apontam a existência de
um terceiro mercado, que cresceu justamente para escapar de fiscalizações e
restrições legais.
No Brás e na Rua 25 de Março, por exemplo,
coexistem três mercados distintos: o oficial, formado por produtos licenciados,
com autorização de uso de marca e identidade visual; o paralelo, caracterizado
pela reprodução direta de marcas, escudos, mascotes e elementos protegidos; e
um terceiro segmento, considerado como uma "zona cinzenta", composto por itens
inspirados na Copa.
São camisetas, bandeiras, bonés e acessórios que
evitam o uso explícito de símbolos protegidos, mas exploram o imaginário do
evento com verde e amarelo, frases genéricas, referências ao futebol e design
semelhante ao universo da seleção.
A estratégia, segundo especialistas ouvidos pela
reportagem, é escapar de sanções e, ao mesmo tempo, manter margem comercial.
Nem tudo é pirataria clássica.
O apelo
emocional da Copa do Mundo ajuda a explicar por que, em períodos de grandes
competições, cresce a procura por produtos não oficiais, falsificados ou
inspirados em marcas e seleções.
Segundo Rafael Somera, especialista em
comportamento do consumidor, o evento altera temporariamente a lógica de compra
ao mobilizar fatores como pertencimento, identidade e emoção coletiva.
"Em momentos como a Copa, o consumidor deixa de
olhar apenas para o produto e passa a comprar o símbolo emocional que ele
representa. Muitas vezes, ele não está adquirindo apenas uma camisa, mas a
sensação de participar daquele momento."
De acordo com Somera, pesquisas de comportamento
mostram que, quando a emoção aumenta, a percepção de risco tende a diminuir - o
que ajuda a relativizar aspectos como origem, qualidade ou procedência dos
produtos.
"Especialmente quando há uma percepção de uso
temporário, o raciocínio costuma ser: 'é só para a Copa', 'é só para torcer',
'não preciso da oficial'", afirma.
Apesar disso, o especialista destaca que o
consumidor brasileiro, em geral, sabe diferenciar um item oficial de um
falsificado ou apenas inspirado. "O brasileiro não é ingênuo. Muitas pessoas
sabem exatamente o que estão comprando. O ponto é que a decisão raramente é
apenas racional. Ela envolve renda, desejo, pertencimento e contexto
emocional."
O preço continua sendo um fator decisivo, sobretudo
diante da inflação, juros elevados e perda do poder de compra. Mas, segundo
Somera, há também uma lógica psicológica envolvida.
"O consumidor faz uma conta mental do custo da
frustração. Se entende que vai usar aquele item poucas vezes, tende a aceitar
uma qualidade inferior e, muitas vezes, falsificada", explica.
O avanço do ambiente digital também vem mudando
esse comportamento. "Hoje o consumidor pesquisa mais, compara avaliações e
observa experiências de outras pessoas antes de decidir", afirma o
especialista.
Conta da legalidade
Para o empreendedor formal, o problema vai além da
competição de preços. Quem atua dentro das regras precisa absorver custos
tributários, folha de pagamento, aluguel, emissão de nota fiscal, regularização
empresarial e, em alguns casos, licenciamento de produtos.
Por outro lado, itens similares chegam ao mercado
sem os mesmos custos regulatórios, o que pressiona as margens e reduz a
competitividade.
A expansão do comércio irregular também afeta o
ambiente de negócios ao reduzir incentivos para a formalização. Empresários
legalizados enfrentam uma assimetria competitiva que, na prática, encarece a
operação formal.
Renan Luiz Silva, superintendente de Serviços
Institucionais da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), que também é
responsável técnico da AC Marcas - escritório de marcas e patentes da entidade
- e administrador do principal escritório regional da Junta Comercial do Estado
de São Paulo (Jucesp), afirma que a concorrência com produtos irregulares se
intensifica em períodos de maior apelo comercial, mas é um problema permanente
para quem empreende dentro da legalidade.
"A pirataria afeta o empreendedor formal durante
todo o ano, mas, em períodos como a Copa do Mundo, o impacto se intensifica
porque cresce a procura por itens temáticos. O comerciante regular, que paga
imposto, emite nota e segue regras, acaba competindo em condições desiguais."
Segundo ele, os efeitos vão além do lojista e
atingem toda a cadeia produtiva.
"Quem sofre não é apenas o comerciante da ponta.
Existe um ecossistema inteiro envolvido, que inclui indústria, fabricantes,
fornecedores e prestadores de serviço. Quando cresce a ilegalidade, há menos
estímulo para investimento, geração de emprego e abertura de novos negócios",
diz Silva.
Na avaliação do especialista, o combate à pirataria
exige fiscalização permanente, mas também medidas mais amplas para reduzir
incentivos ao mercado irregular.
"O enfrentamento precisa ocorrer tanto no físico
quanto no digital, desde a entrada do produto no país até a distribuição.
Fiscalização contínua e penalização são importantes, mas também é preciso
conscientizar o consumidor sobre os impactos econômicos da informalidade e
tornar o produto regular mais acessível", afirma.
Para Renan, existe uma diferença importante entre
falsificação e produtos apenas inspirados no evento esportivo.
"Um produto temático, criado de forma original, sem
copiar marca, símbolo ou propriedade intelectual, pode ser legítimo. O problema
começa quando há reprodução indevida, porque aí deixa de ser criatividade e passa
a ser ilegalidade."
Oportunidade
Apesar dessa competitividade, muitos lojistas do
comércio popular de São Paulo veem na Copa uma oportunidade importante de
faturamento. A aposta, porém, vem acompanhada de cautela.
Há 22 anos na região da Rua 25 de Março, Silvana
Ribeiro, proprietária de uma loja de artigos para festas e decoração temática,
afirma que a Copa do Mundo costuma aumentar o movimento, mas nem sempre garante
lucro.
"A Copa sempre chama cliente. O problema é que o
consumidor quer entrar no clima, mas muitas vezes não quer pagar pelo produto
oficial ou por um item de melhor qualidade. Aí fica difícil competir", diz.
Segundo ela, a diferença de preço pesa diretamente
na decisão de compra. "Muita gente pergunta se é oficial, mas, quando compara
os valores, acaba levando o mais barato."
A comerciante afirma ainda que ações de
fiscalização ajudam a organizar o ambiente de negócios, mas têm efeito
limitado. "Quando tem operação, melhora um pouco porque passa mais segurança
para quem trabalha regularizado", afirma Silvana.
Com os jogos chegando, lojistas do comércio popular
apostam no aumento do movimento, mas convivem com um cenário de competição
desigual. Entre produtos oficiais, itens inspirados e mercadorias irregulares,
o desafio será transformar o entusiasmo do torcedor em vendas sem perder espaço
para a informalidade.
Fonte:
Diário do Comércio