Utilizado por bancos, financeiras e
varejistas, o score ajuda a medir o risco de inadimplência e influencia a
concessão de crédito aos consumidores
Uma atendente de
loja de roupas pergunta ao consumidor: "Gostaria de fazer o cartão da loja para
ganhar 10% de desconto na compra?" O consumidor, animado, responde: "Sim!" Após
uma rápida consulta no computador, a atendente informa, desanimada: "Sinto
muito, mas o senhor não tem score suficiente".
O score de crédito nacional é um sistema de
pontuação analítica que auxilia as empresas a entender o nível de risco ao
conceder crédito a determinado cliente, especialmente pessoa física, com base
em sua vida financeira. A pontuação demonstra a probabilidade de inadimplência
futura do consumidor, de acordo com o seu atual momento financeiro. Por
exemplo, se o consumidor tem um score baixo, significa que ele não está em um
momento financeiro propício à concessão de crédito.
"Essa probabilidade indica as chances de o consumidor
pagar as contas em dia nos próximos 12 meses", explica Bany Fard, especialista
em investimentos e negócios internacionais. Apesar de ser um sistema
informativo utilizado por muitas empresas privadas na concessão de crédito, não
é a única metodologia adotada pelas instituições financeiras. Segundo Fard,
cada instituição possui sua própria metodologia para analisar os riscos da
concessão de crédito para cada cliente.
O score geralmente é utilizado por empresas
privadas que possuem seus próprios cartões de crédito, os cartões de loja, como
redes de supermercados e de vestuário. Para as empresas que concedem crédito, é
uma forma de se resguardarem ao analisar com mais precisão os riscos
envolvidos, com o objetivo de evitar fraudes, excesso de endividamento e,
consequentemente, prejuízos.
A pontuação para pessoas físicas e jurídicas possui
metodologias semelhantes. No entanto, as regras de análise para empresas são
diferentes das utilizadas para pessoas físicas, pois consideram fatores como
histórico de faturamento, pagamento a credores e níveis máximos de
endividamento em relação ao faturamento líquido.
Embora o score seja utilizado tanto para pessoas
físicas quanto jurídicas, ele tende a ser mais relevante para pessoas físicas,
especialmente na concessão pelo varejo.
De acordo com Marcos Coque, diretor de analytics da
Equifax Boa Vista, a consulta do score permite que as empresas realizem
análises de risco mais precisas e definam estratégias de concessão de crédito
mais adequadas aos diferentes perfis de consumidores.
"Além do score, a Equifax também disponibiliza
indicadores complementares que podem apoiar a análise de crédito, como renda
presumida e capacidade de pagamento. Dentro desse conjunto, há informações como
saldo disponível para novos compromissos financeiros e comprometimento de
renda, que ajudam as empresas a compreenderem de forma mais ampla a situação
financeira do consumidor", diz Coque.
Pontuação
Normalmente, a pontuação varia de 0 a 1.000 pontos,
sendo essa a escala mais utilizada por empresas de análise de score, como
Equifax Boa Vista e Serasa. As faixas de classificação variam conforme
demonstrado abaixo:
0 a 300 pontos - Muito baixo (alto risco de inadimplência);
301 a 500 pontos - Baixo (probabilidade considerável de inadimplência);
501 a 700 pontos - Bom (baixa chance de inadimplência e alta probabilidade de
concessão de crédito);
701 a 1.000 pontos - Excelente (baixa probabilidade de inadimplência e alta chance de concessão
de crédito).
De acordo com Fard, todo consumidor maior de idade
e economicamente ativo é considerado automaticamente pelo sistema de análise,
que monitora sua pontuação ao longo do tempo. O cidadão normalmente começa com
uma pontuação média e, conforme seu histórico de pagamentos evolui, essa
pontuação pode influenciar a obtenção de empréstimos ou financiamentos.
O que afeta o score?
Hábitos de pagamento - A pontualidade no pagamento de faturas e parcelas auxilia na
manutenção de uma boa pontuação.
Dívidas - Ter
dívidas em atraso afeta negativamente a pontuação.
Experiência com crédito - O histórico de utilização de crédito permite às empresas avaliar
há quanto tempo o cliente utiliza crédito, seu histórico de pagamentos em dia,
entre outros fatores.
Busca por crédito - O número de consultas realizadas por empresas de crédito ao CPF do
consumidor pode afetar a pontuação.
"Se um consumidor tem uma pontuação baixa e é
identificada uma alta quantidade de consultas ao CPF, isso pode penalizar sua
pontuação, pois pode indicar que ele está tentando contrair novas dívidas", diz
Fard.
No entanto, caso o consumidor tenha uma boa
pontuação, o elevado número de consultas ao seu CPF apenas demonstra que ele
está avaliando diferentes opções de crédito, sem efeito relevante sobre sua
pontuação.
Dados cadastrais - O preenchimento e a atualização das informações pelo próprio
consumidor junto às empresas que analisam o score tendem a afetar positivamente
a pontuação.
Como aumentar a pontuação?
É possível melhorar a pontuação por meio da adesão
ao Cadastro Positivo, sistema nacional de histórico de pagamentos regulamentado
pelo Banco Central, dentro das plataformas de análise de dados. Por meio dele,
o consumidor registra o pagamento de contas como água e energia elétrica, que
nem sempre são consideradas pelas empresas de análise de pontuação de crédito,
demonstrando, assim, um bom histórico financeiro.
Outra boa prática é pagar todas as contas em dia,
principal fator que influencia o score. Além disso, negociar dívidas em aberto
também é importante para consumidores ou empresas que desejam melhorar sua
pontuação, retirando restrições dos órgãos de proteção ao crédito e melhorando
sua imagem diante do mercado.
Também é possível ativar o Open Finance, permitindo
o compartilhamento de dados financeiros entre bancos, como histórico de
crédito, investimentos e transações. Isso pode facilitar a obtenção de crédito
com taxas mais competitivas.
Fard também explica que é importante não consultar
diversas linhas de crédito em um curto período de tempo, pois isso pode
sinalizar risco ao mercado ou até mesmo necessidade urgente de crédito,
especialmente se a pontuação não estiver elevada.
Além disso, manter contas de consumo, como água e
energia elétrica, vinculadas ao próprio CPF ajuda a criar um histórico mensal
de pagamentos, contribuindo positivamente para o score. "Quando o consumidor
tem uma empresa e acaba colocando todas as contas no CNPJ, isso deixa o CPF
invisível", explica.
Outro fator de atenção é pagar apenas o valor
mínimo da fatura do cartão de crédito. Em um cenário de alta inadimplência,
esse comportamento pode afetar negativamente a pontuação.
Mitos e verdades
De acordo com Fard, consumidores e empresas devem
tomar cuidado com propostas "milagrosas" de aumento de score, como consultorias
que prometem elevar a pontuação em até 24 horas mediante pagamento. Isso não é
possível devido às metodologias estatísticas e graduais utilizadas pelos
sistemas de score.
Além disso, algumas pessoas oferecem serviços para
apagar consultas ao CPF, algo que não é possível, pois essas informações
permanecem registradas nas empresas de proteção ao crédito. O especialista
também ressalta que quitar uma dívida não melhora o score automaticamente,
sendo um processo gradual.
Outro mito é acreditar que a autoconsulta do score
reduz a pontuação. Isso não é verdade. O consumidor pode consultar seu próprio
CPF de forma ilimitada, sem qualquer efeito sobre a pontuação, seja pessoa
física ou jurídica. Para isso, basta realizar um cadastro em plataformas como
Equifax Boa Vista ou Serasa e consultar gratuitamente suas informações.
Possuir o nome limpo é um fator positivo, mas não
garante score alto, segundo Coque. Isso porque o score é calculado com base em
um conjunto amplo de informações relacionadas ao comportamento financeiro do
consumidor.
Assim como uma pontuação baixa não exclui
automaticamente um consumidor da possibilidade de obter crédito. Embora as
instituições financeiras considerem o score, outros fatores, como metodologias
próprias de análise e as taxas de juros, também influenciam a concessão.
É possível conseguir crédito estando negativado?
Segundo Fard, mesmo consumidores considerados
negativados, com o CPF inscrito nos órgãos de proteção ao crédito, podem
conseguir acesso a empréstimos. No entanto, trata-se de um processo mais
difícil, geralmente acompanhado de taxas de juros mais elevadas. Para as
instituições que concedem crédito, essa é uma estratégia para atrair mais
clientes.
"Quando um banco fornece crédito a uma pessoa
negativada, isso significa que a instituição está reduzindo deliberadamente sua
régua de risco para atrair mais clientes, assumindo determinada taxa de
inadimplência e compensando esse risco com juros mais altos", explica Fard.
"Por que isso acontece? A probabilidade é de que,
entre 10 mil pessoas negativadas, apenas 5% deixem de pagar o crédito, ou seja,
500 consumidores. Assim, as instituições financeiras distribuem o custo dessas
perdas entre os bons pagadores, cobrando taxas de juros mais altas", completa
Fard.
Fonte:
Diário do Comércio, com edição do texto pela M&M Assessoria Contábil