O receio de pagar
mais impostos com a entrada em vigor das mudanças previstas na Reforma
Tributária já começou a alterar o comportamento de famílias que pretendem
antecipar a sucessão patrimonial. Às vésperas da implementação das novas
regras, os cartórios brasileiros registraram um recorde de doações de imóveis.
Em 2025, foram lavradas 185.861 escrituras desse tipo, um aumento de 59% em
comparação com 2020 e o maior volume da série histórica, segundo dados do
Colégio Notarial do Brasil - Conselho Federal (CNB/CF).
O crescimento é
atribuído à expectativa de mudanças no Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e
Doação (ITCMD), que poderão elevar o custo da transferência de patrimônio em diversos
estados a partir de 2027. A Reforma Tributária estabelece diretrizes para a
adoção obrigatória de alíquotas progressivas do tributo e abre caminho para que
os estados utilizem o valor de mercado dos imóveis como base de cálculo,
substituindo critérios que, em muitos casos, resultavam em valores inferiores.
A perspectiva de
aumento da carga tributária tem levado muitas famílias a anteciparem a doação
de bens a filhos e outros herdeiros como forma de planejamento sucessório.
Paralelamente, a arrecadação do ITCMD também tem apresentado forte crescimento.
Apenas na Região Sudeste, a receita do imposto passou de R$ 6,1 bilhões em 2020
para R$ 10,6 bilhões em 2025, refletindo tanto a valorização do patrimônio
quanto o aumento das transmissões formalizadas.
Entre as
alternativas mais utilizadas está a doação com reserva de usufruto. Nessa
modalidade, os proprietários transferem a titularidade do imóvel aos herdeiros,
mas preservam o direito de utilizar, administrar e até receber rendimentos do
bem durante toda a vida. O modelo é considerado uma das principais ferramentas
de planejamento patrimonial por permitir a organização da sucessão sem que o
doador perca o uso do imóvel.
Os números mostram
uma trajetória de crescimento contínuo nas doações de imóveis. Depois de
160.860 escrituras registradas em 2023 e 174.493 em 2024, o país atingiu o
recorde de 185.861 atos em 2025. A expectativa de especialistas é que esse
movimento continue nos próximos anos, à medida que os estados regulamentem as
novas regras previstas pela Reforma Tributária.
O impacto,
entretanto, não será uniforme em todo o país. Nos estados que ainda adotam
alíquotas fixas do ITCMD - São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Espírito Santo,
Amazonas, Alagoas, Amapá, Rio Grande do Norte e Roraima - a principal mudança
será a obrigatoriedade da cobrança por alíquotas progressivas, que poderão
chegar ao teto nacional de 8%, de acordo com o valor do patrimônio transmitido.
Já nos estados que
já utilizam alíquotas progressivas, como Rio de Janeiro, Bahia, Goiás, Pernambuco,
Ceará, Santa Catarina, Mato Grosso, Paraíba e Tocantins, o principal impacto
deverá ocorrer na base de cálculo do imposto, que poderá passar a considerar o
valor de mercado dos imóveis. Com isso, o montante devido poderá aumentar mesmo
sem alteração das alíquotas.
Há ainda um terceiro
grupo formado por Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Pará, Maranhão, Rondônia
e Piauí, onde as mudanças poderão ocorrer de forma combinada, tanto pela adoção
de critérios mais rigorosos para avaliação do patrimônio quanto por eventual
elevação das alíquotas máximas do ITCMD, o que tende a ampliar o custo das
futuras transmissões patrimoniais.
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Fonte: O Sul / O Globo