Preâmbulo.
Com olhos atentos e coração pulsante assisti ao documentário cinematográfico “Lixo Extraordinário” um resgate humano, estético e comovente da dignidade humana, filmado, em grande parte, no Jardim Gramacho, Rio de Janeiro, o maior depósito de lixo do mundo. Senti a verdadeira densidade desta obra de arte e presto louvor à direção de Lucy Walker e ao artista plástico Vik Muniz, pela grandeza desta obra prima.
Pedalando rumo ao tema.
Antigo provérbio, eivado de graça lusa, prescrevia que quem não sabe o que quer, quando encontra, não se dá conta.
A questão sustentabilidade passa a ser conhecimento coletivo quando os problemas aos quais se refere, dia após dia, tornam-se alarmantes.
O professor Mozart Pereira Soares, com sua vasta erudição, em amena exposição de suas concepções científicas, pautava que talvez por esse imenso universo de 6 trilhões de galáxias somente nosso planeta tenha estruturado as composições de água, oxigênio, terra, competentes para viabilizar o ciclo evolutivo da flora, fauna e o surgimento da espécie humana.
Pelas vastidões do universo, lamentavelmente, se desenvolveriam apenas rudimentares bactérias, contrariando as expectativas dos ufologistas. “A terra é o provável paraíso perdido,” disse Lorca.
Memórias
Quem tenha na memória um suporte de suas ideias há de lembrar Luzes da Ribalta, o filme de Chaplin, onde Calvero, o palhaço em ocaso e domador de pulgas, ante o desespero suicida da bailarina Claire Bloom lhe demove do caos afirmando que a vida levou milênios para criar um ser consciente, e que não seria justo, num gesto individual, desprezar este milagre do surgimento de um ser consciente que pensa, canta, dança, cria.
O discurso chapliniano pode muito bem transferir-se ao mundo das empresas públicas e privadas, cuja atuação interfere na continuidade sustentável da vida.
O século XX teve mais inventos que todos os séculos que o antecedem. Cada ser humano tornou-se herdeiro de pesquisas, descobertas e invenções monumentais. Colocar esta instrumentação a serviço da vida é um compromisso ao qual ninguém poderá se furtar.
O momento explicito
Poluímos as águas e os céus, devastamos os mares, secamos rios, criamos sórdidos cortiços habitacionais com milhões de sobreviventes, alastramos a violência e engarrafamos nossas vidas em um trânsito trôpego e desesperante. Mas nem por isso os melões perderam seu aroma, os jardins deixaram de florescer, pois a terra é incondicional em sua generosidade embora limitada em suas reais possibilidades.
Se contarmos apenas com a consciência dos problemas ambientais, nosso futuro correria por penhascos e labirintos. Os legisladores de vários países procuram estabelecer normas de conduta que determinam a proteção à natureza.
As leis, porém, só ganham coercitividade se respaldadas na consciência e determinação dos contingentes humanos. Caso contrário, são efêmeras borboletas esvoaçantes.
Da conscientização
As campanhas sobre a sustentabilidade devem começar nas escolas, com farto e sedutor material didático, para que se crie uma geração ecológica, verdadeiros guardiões da natureza.
O dia amanhecerá com um belo sol no horizonte. De noite a lua há de passear pelo céu. Há tanto verde pelas estradas. Tudo nos convida a acreditar que os problemas ecológicos estão centrados na cabeça de nefastos pessimistas.
Mas a cada ano a natureza revela seu crescente descontentamento ou desequilíbrio. “O homem aprendeu a dominar a natureza antes de ter aprendido a dominar a si mesmo”, afirmou Albert Schuwister. Os noticiários captam tragédias e calamidades e com eles nutrem seu sôfrego Ibope. De imediato, amenizando os soterramentos, desmoronamento de montanhas, Tsunami, tufões e outras óperas de uma planeta tragificado, veiculam as amenidades dos golos do campeonato nacional ou o deslumbramento do mundo fashion das passarelas.
Com as utopias de cócoras, as ideologias, qual iogurte, com data vencida, uma nova bandeira tremula nos ares: a bandeira da defesa da natureza. Se as empresas desempenham funções vitais na sociedade, a elas incumbe tornar sua a bandeira da sustentabilidade. Instituições, órgãos representativos das categorias sociais, dos setores empresariais, devem ser guias motivadores e talvez controladores das atuações que tenham reflexos, diretos ou indiretos, sobre a natureza.
Se a natureza faz a sua parte, façamos a nossa. Quando a última árvore for cortada e o último rio envenenado, perceberemos que todo dinheiro do mundo nada vale. A própria Bíblia nos receita: “não machuque a terra, nem o mar, nem as árvores”.
Conclusivo
O embate ideológico cedeu lugar a um conceito de gestão. E nenhuma gestão será eficiente, em empresas de qualquer porte ou origem, se não frontalizar seu compromisso com a sustentabilidade. Isto envolve projetos de longo alcance e medidas de controle cotidiano. Propagar objetivos alcançados não será proselitismo, mas medida motivadora a novas iniciativas. Precisamos repensar o planeta e o ser humano. Produzimos duas toneladas de grãos por habitante neste espaço geográfico do Rio Grande. E ainda existem homens, mulheres e crianças sub- alimentados. Cantamos hosanas a exportações e esquecemos que as pessoas são o maior capital de um país, estado ou cidade. Tenho comigo que o sol negará sua luz e a lua seu lenço aos que unham, mordem e sangram o fértil seio da terra.
Por Luiz Coronel