Há anos atrás, numa sala de audiência, no interior de Goiás, uma senhora simples de origem rural, dirigiu-se a Dora Maria Costa chamando-a de “Dona Coisinha”. Dora era a Juíza. Em vez de parar o trabalho e pedir para que esta senhora mudasse o tratamento dado a ela, simplesmente, fingiu que não ouviu e seguiu a audiência.
Numa outra oportunidade, numa palestra, Dora falou que “um Juiz nunca deve barrar um trabalhador ou uma testemunha numa sala de audiência porque ele está de chinelos, pois talvez seja o único calçado que ele tem”.
Dora Maria Costa subiu na carreira e hoje é Ministra do Tribunal Superior do Trabalho.
Também, há anos atrás, um certo advogado, Dr. Flávio*, advogando em bairro de periferia foi arrolado como testemunha em um processo. Não gostou de ter que ir ao Fórum apenas para testemunhar. A audiência atrasou e cada vez o Dr. Flávio ficava mais impaciente. Por volta das 19h, o Fórum já estava praticamente vazio quando foi solicitado ouvir a última testemunha. Antes de fazer o pregão (a chamada) o servidor do judiciário antecipou: “acho que não tem mais ninguém. O Fórum já está quase vazio!” Mesmo assim, dirigiu-se a porta e chamou: “Flávio… Flávio…” Como ninguém se manifestou, virou-se para a sala, e já fechando a porta, disse: “realmente não tem nenhum Flávio aqui”. Nesse momento, Flávio aproximou-se da sala de audiência e com o seu pé esquerdo barra o fechamento da porta e, em alto e bom som, exclama: “Não tem nenhum Flávio aqui. Somente Dr. Flávio…” E entra na sala de audiência…
Passado vários anos o Dr. Flávio, que nunca cursou doutorado, utilizando o Dr. com base numa legislação de 1827, na época de Dom Pedro I, continua advogando no mesmo bairro de periferia, cada vez com uma clientela menor e um número de não simpatizantes maior.
Moral das histórias. A humildade em nada atrapalha e pode te levar longe.
*O nome do advogado foi alterado para preservar a verdadeira identidade do profissional.
Por Marcone Hahan de Souza