“Ética é coisa para filósofos.”
(Eurico Miranda, ex-presidente do Vasco da Gama)
Alguns reais investidos e seu perfil no Facebook,
Twitter, Instagram e outras redes sociais ganha milhares de seguidores. Este
instrumento de marketing de guerrilha, profissionalizado há alguns anos, tem
ganhado impulso entre artistas, cantores, políticos e todo tipo de gente que
busca se mostrar popular. O intuito é apelar ao efeito manada, princípio da
psicologia das massas segundo o qual as pessoas agem em bandos, num autêntico
fenômeno grupal. Afinal, se determinada pessoa ou empresa tem tantos seguidores,
deve ser por merecimento. Aqui mora o equívoco.
Dia destes recebi um post de um professor
brasileiro, que eu não conhecia até então, e ao acessar seu perfil no Facebook
descobri que tinha cerca de dez mil seguidores. Um rápido clique sobre a opção
“curtir” e a revelação: sua cidade mais popular era Carcóvia, na Ucrânia. Além
disso, durante vários dias da semana a adesão de novos seguidores era nula, com
picos em determinadas datas.
Recentemente o cantor Luan Santana veio a público
demonstrar sua indignação diante de acusações de fraude na audiência de seus
vídeos no Youtube.
O fato é que comprar seguidores pode ser uma
estratégia interessante para empresas que pretendam difundir seus produtos ou
serviços, gerando virais para alcançar a maior amplitude possível, aumentando
significativamente o número de pessoas atingidas. Porém, para pessoas, é um
ledo engano, simplesmente porque é contraproducente e antiético.
De que adianta ostentar uma legião de pessoas que
talvez não tenham qualquer sinergia com suas ideias? Ou, pior, pessoas que
simplesmente não existam, pois foram artificialmente criadas apenas para fazer
volume. E isso é muito fácil de constatar, pois há perfis constituídos apenas
pela foto e meia dúzia de informações, sem histórico de postagens e com vínculo
apenas a outros perfis similares.
A verdade é que vivemos tempos de valores fluidos,
pouco consistentes. Empresas declaram a integridade como um de seus princípios
fundamentais, mas não hesitam em oferecer propinas, gorjetas e favorecimentos de
toda ordem para angariar um pedido. Profissionais atropelam colegas de trabalho
e mudam de opinião a cada minuto para justificar apoio a um superior
hierárquico e, assim, garantir sua escalada na pirâmide organizacional. Os fins
justificam os meios.
São tempos de faça o que eu digo, mas não o que eu
faço. Tempos de incongruência e ausência de retidão. Meses atrás fui
surpreendido com uma “adaptação” de meu conceito sobre qualidade de vida
intitulado “Sete Vidas”, desenvolvido em 2003, por uma empresa que apenas mudou
descaradamente uma palavra e alterou a sequência lógica propagandeando o
lançamento de uma “metodologia única”.
Como escrevi há quase dez anos, vivemos sob a
égide do marketing de percepção, em um mundo governado pela ditadura da imagem.
O triunfo da estética sobre a moral. Você é tão belo quanto seus trajes e seu
último corte de cabelo possam sinalizar. Tão bom quanto a procedência dos
diplomas e a fluência em idiomas possam indicar. Tão valorizado quanto a
competência ratificada e os resultados apresentados possam parecer.
Afinal, quer pagar quanto?
Por Tom Coelho.