Na retrospectiva do período Vargas, produzida ao ensejo dos 50 anos de sua morte, foi dada grande ênfase à Carta Testamento do ex-presidente. Em realidade, esse documento, e o radicalismo que o cerca, não constituíram a característica principal do governo Vargas: foram apenas tópicos esparsos dos últimos anos de seu governo, visando mudanças no establishment tupiniquim. Vargas deu curso a um programa de governo dedicado à industrialização do Brasil, tendo também o estado como o carro-chefe nesse processo. Esse projeto nacional teve continuidade através de uma governança assegurada pela aliança entre o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), com fundamentação progressista, que cuidava da política social, e o Partido Social Democrático (PSD), que de forma conservadora conduzia a gestão econômica do governo. Agora, o Brasil tem no seu comando, novamente, um presidente com elevada representatividade da área social, disposto a governar conciliando ações e interesses antagônicos, conjugando um programa mais conservador visando manter a estabilidade econômica e a sustentabilidade política do País com outro de cunho reformista, mais reclamado pela sociedade em geral e focado nos interesses da Nação no longo prazo.
Ocorre que, sintomaticamente, influentes vozes no horizonte político interno vêm atacando a “interferência ideológica” do estado na economia. O que se está criticando, em última instância, é a visão de longo prazo, do maior interesse para o Brasil, pois que significa o ressurgimento de políticas públicas iniciadas no Brasil há 50 anos mas que foram abandonadas a partir da frustrante década de 80. A experiência vivida nos anos 90 mostrou ter sido catastrófica a omissão do estado em seu papel de formulador do planejamento estratégico do País. Por outro lado, essa mesma experiência nos dá a convicção de que não mais ocorrerão os nefastos desvios da ação do estado verificados no passado, pois que tais políticas terão suas aplicações fiscalizadas de forma transparente através parcerias do setor público com o setor privado e a sociedade, criadas para promover o desenvolvimento econômico de forma pactuada e sustentável.
Autor: Nelson Brasil de Oliveira – Vice-presidente da Associação Brasileira
da Indústria de Química Fina/Abifina
E-mail: carol@jls-associados.com.br
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