– Acorda meu filho, é terça feira, 7 horas. Acorda, deves ir ao colégio.
– É cedo, deixa-me dormir mais um pouco!
– Que nada! Daqui a pouco o teu tio Isaac já estará chegando para te dar carona e também o teu colega Humberto estará aqui para irem juntos na carona até o colégio.
– Puxa, não posso nem mais dormir um pouco…
– Rápido, acorda. Toma teu café. Faz tua higiene. Arruma-te e vais logo ao colégio. O tempo está nublado. Está frio. É inverno. Teu uniforme do colégio está ao lado da cama.
– Ta bem! Ta bem! Já estou indo…
Assim aconteceu. Dionísio foi ao colégio – Escola de Educação e Cultura. Terça-feira, 24.
8 horas. Dona Helena bateu o sino. Todos os alunos se dirigem às salas de aula. A professora Marion, sempre com sorriso nos lábios, estava lá a receber seus alunos.
– Bom dia meus aluninhos.
– Bom dia, professora – responde todos, numa espécie de coral matutino (apesar do ar sonolento estampado nos rostos).
Passados alguns momentos, entra Cinara – secretária da Diretora Nair correndo na aula, sem antes pedir licença para esta entrada. Estava nervosa. Dirige-se à professora. As duas pessoas cochicham… A professora Marion fica espantada com a notícia. Logo a seguir fala aos alunos:
– Alunos! Acabamos de receber a notícia do falecimento do Presidente da República do Brasil: Dr. Getúlio Dorneles Vargas. Vão todos para casa. Não fiquem nas ruas. As aulas estão suspensas…
– E agora, o que fazer? Como vou avisar meus pais? Comenta Dionísio
– Não te preocupa, diz Humberto, também meio nervoso. Vamos conversar com a professora Marion. Ela vai para lá. Ela mora perto da nossa casa.
E assim aconteceu.
Manhã nublada. Fechada, quase noite. De imediato nota-se no céu a movimentação dos aviões a jato. Deviam estar saindo da base aérea de Gravataí. Estavam todos sobrevoando, baixo a capital dos gaúchos. A nossa Porto Alegre…
– Os passarinhos estavam chateados! Não podiam voar sossegados em função da barulheira daqueles aviões, comentava Dionísio a Humberto no decorrer da caminhada até chegarem em casa.
Chegando lá o pai de Dionísio também estava vindo do trabalho. Também ele foi solicitado no seu trabalho para ir à sua casa. A cidade estava em polvorosa! Movimentação intensa… Muita correria.
As rádios só falavam no mesmo assunto:
– “Atenção, atenção, o Presidente Getúlio se matou! O Presidente Getúlio se suicidou! O Presidente…”.
Todos ficaram sabendo que estavam incendiando prédios com o nome “americano“: Empório Americano de Móveis, Importadora Americana e também estúdios da Rádio Farroupilha que pertenciam aos Diários e Emissores Associados.
– Que coisa terrível! Exclama o Maurício, o pai de Dionísio. Vamos até o centro da cidade pra ver os acontecimentos?
– Não vão nada, fala Anita, a mãe. É perigoso!
– Que nada! Vamos pegar o bonde e ir até o Bom Fim. Não é muito longe daqui.
Mesmo com a negativa da mãe os dois se dirigiram aos locais dos incêndios. Pegaram o bonde Petrópolis. Ao chegarem no Bom Fim se depararam com o Bar Bom Fim (Avenida Oswaldo Aranha esquina com Rua Felipe Camarão) – “o Fedor” – como era conhecido por muitos em chamas. O medo tomou conta dos personagens… Desceram do “coletivo” elétrico e retornaram rapidamente à residência.
– Voltaram? Eu não disse a vocês para não saírem de casa?
– Sim. Ficamos com medo! Muita quebradeira… Muito fogo… Muita correria nas ruas… Até o “fedor” estão incendiando. Diz Maurício
…
Assim foi o 24 de agosto de 1954 na cidade de Porto Alegre. Dia de tristeza! De muita tristeza…
Passado 50 anos tudo vem à memória. Parece mentira! O tempo passou, mas a memória nos traz tudo novamente. Parece que foi ontem!
Aquela manhã nublada! A ida à escola. À volta a casa! As rádios anunciando o fato. Os incêndios se multiplicando.
O Presidente tinha se matado com um tiro no peito – de pijama listrado!! No Palácio do Catete. No Rio de Janeiro – Capital do Brasil.
A revista “O Cruzeiro” estampa na capa a foto do século: O Presidente morto.
Os jornais locais Correio do Povo e Diário de Notícias lançam edições extraordinárias.
Foi o fato jornalístico mais importante do ano de 1954.
…
Porque a lembrança?
Porque estamos em 2004. Ano das “datas redondas“: 30 anos da Bossa Nova (Brazilian Jazz), 100 anos da Imigração Judaica no Rio Grande do Sul, 180 anos da Imigração Alemã, 450 anos da cidade de São Paulo – a locomotiva do Brasil – e 50 anos da morte do Presidente Getúlio Vargas – o Presidente baixinho e gaúcho. O Presidente de São Borja. O Presidente da CLT.
Hoje em Porto Alegre em lugar do “fedor” existe um “espigão” – um edifício de escritórios com uma agência bancária no térreo. Não existe mais nem a Importadora Americana e nem o Empório Americano de móveis. A rádio Farroupilha não está mais no mesmo lugar e nem mais pertence aos Diárias e Emissoras Associadas.
Porto Alegre está com uma população maior. Muito maior. Mais linda, mas sem bonde e sim com ônibus com ar condicionado. Mais arborizada. Sempre hospitaleira… Mas a lembrança daquele dia nublado não sairá da memória daqueles que vivenciaram. É a história…
24 de agosto de 1954. Terça feira de clima nublado na capital dos gaúchos, frio e de triste memória para mim, para a população brasileira e para o mundo democrático.
Autor: David Iasnogrodski – engenheiro, administrador, escritor
E-mail do autor: david.ez@terra.com.br
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