Quando foi lançado o Programa Brasil Empreendedor pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, em parceria com o Sebrae, foi gerada uma forte expectativa no sentido de acesso ao crédito para financiar novos empreendimentos.
O mérito do programa foi instituir um curso de capacitação de empreendedores, cuja certificação faria parte dos requisitos de crédito.
Na teoria o programa realmente andou. Houve articulação com bancos oficiais para operacionalizar esse tipo de financiamento, mas o problema surgiu no momento de formalizar o pedido. Os processos caíram na vala comum, isto é, foram submetidos ao mesmo crivo de análise como outro projeto qualquer. Sucumbiram aos quesitos de experiência dos empreendedores e tempo de atividade da empresa.
Esse é mais um exemplo da diferença entre o discurso e a prática. O banco não está errado em cercar-se dos cuidados naturais de concessão de crédito, afinal é dele o risco; o que se questiona é a expectativa exagerada de certos programas.
Deve ser entendido que todo e qualquer anúncio de crédito faz parte da política da instituição, mas a sua efetivação depende da análise técnica de cada projeto. O tipo de negócio e a qualificação da empresa são fatores determinantes de êxito.
A informalidade da gestão, evidenciada pela falta de uma Contabilidade Gerencial, vem sendo observada como um dos pontos fracos de aspirantes ao crédito.
Empresas de pequeno porte escusam-se da escrituração contábil sob o manto do regime fiscal do Simples, que as eximem dessa obrigação, mas é requisito de análise de crédito por parte de bancos de fomento.
Por mais promissor que seja o projeto é fundamental que a empresa apresente um histórico de bom desempenho, o que deve estar refletido em demonstrativos que vão além da contabilidade fiscal.
A falta de um sistema de informações gerenciais dificulta o acompanhamento da evolução patrimonial da empresa, fator fundamental para a análise de retorno do investimento.
A empresa existe para criar valor econômico e isto se reflete tecnicamente na chamada conta de Patrimônio Líquido. Se ocorrer prejuízo, ou houver distribuição sistemática de lucros, não haverá acréscimo patrimonial, nem o consequente aumento do Capital Social, sendo este um dos fatores determinantes do limite de crédito.
Nesse sentido é importante que o empresário tenha noções básicas de contabilidade e utilize um padrão mínimo de relatórios gerenciais.
Todo o projeto de financiamento é desenvolvido a partir de um roteiro fornecido pela própria instituição de crédito. O empreendedor, entretanto, deve levar em conta que se trata de um modelo básico, aplicável a qualquer tipo de negócio. O importante é personalizar o projeto, isto é, dar o máximo de consistência e explorar toda a sua potencialidade, tendo presente os fatores críticos de análise.
Deve-se levar em conta também que o projeto deve ser rico em substantivos e despojado de adjetivos.
Pelo exposto pode parecer que o banco só financie projetos de expansão. Não, há possibilidade de projetos de implantação, mas isto requer uma abordagem específica.
Antes de encaminhar qualquer pedido de financiamento, o empresário deve ter seu plano por escrito, isto é, desenvolver um Plano de Negócios, onde fique evidenciada a viabilidade do projeto em todo o seu contexto: mercadológico, tecnológico, financeiro e gerencial.
Para credenciar-se ao crédito, portanto, além de um bom projeto, é essencial que a empresa apresente uma identidade clara de organização e competência.
Por Nadir Andreolla