Da líder às novatas, as companhias que registram as transações via
cartões de crédito e débito – no jargão do mercado conhecidas como empresas de
adquirência – apostam nas micro e pequenas firmas para crescer no país, com o
fim da exclusividade que Cielo e Rede (ex-Redecard) das bandeiras Visa e
Mastercard, em vigor até 2010.
Segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e
Serviços (Abecs), o volume de transações com cartões subiu 17,2% no primeiro
semestre do ano, alcançando R$ 980 bilhões. As estratégias para lutar por um
mercado desse tamanho vão desde oferecer melhores taxas à introdução de
serviços que vão além da tradicional máquina de cartões de crédito e débito.
Implementado no mercado em agosto desse ano, o Bin, da multinacional First
Data, é o serviço “caçula” do setor. A nova maquininha ainda tem participação
pequena, de apenas 500 lojas. No entanto, a meta da multinacional, presente no
Brasil há 12 anos e estreante no serviço, é ambiciosa: conquistar entre 7% e
10% de participação de mercado nos próximos cinco anos. Para isso, aposta
principalmente em novos produtos e melhor atendimento para se diferenciar da
concorrência.
– Nosso diferencial vai ser o tablet Clover (previsto para ser lançado no ano
que vem), pelo qual o cliente vai poder administrar o estabelecimento
remotamente. Poderão ser criados diversos aplicativos baseados em Android. Uma
manicure, por exemplo, pode controlar custo de esmalte no salão de beleza pelo
aparelho – adianta Henrique Capdeville, vice-presidente comercial de
adquirência da First Data Brasil.
A implantação do Bin foi resultado de um investimento de mais de R$ 330 milhões
nos últimos dois anos. A empresa, que opera Visa e Mastercard, cobra taxas no
crédito que vão de 2,69% a 3,45%, dependendo do tipo de negócio. Segundo a
companhia, 50% dos consultores são dedicados a vender para pequenas e médias
empresas (que faturam até R$ 2 milhões).
Também com participação modesta no mercado e no mercado desde 2012, a Payleven
segue a mesma linha da First Data, ao tentar prever que tipo de serviços, além
do básico, podem fazer mais sucesso no pequeno varejo. A mais recente ação da
empresa foi firmar uma parceria com a OnePay, especializada no serviço de
recarga de celular. O equipamento aceita crédito, débito e ainda serve para
recarregar telefones pré-pagos, o que pode ser um diferencial para o pequeno
comércio.
Presente
em 40 mil estabelecimentos, a companhia tenta emplacar novos aparelhos para
encantar clientes. O carro-chefe do cardápio da empresa é um leitor de cartão
compacto, que cabe no bolso – voltado para empreendedores que valorizam
mobilidade. O modelo de pagamento também é diferente. Em vez de aluguel, o
cliente compra a máquina, que hoje sai por 12 parcelas de R$ 12,99.
Para
Adriana Barbosa, fundadora da Payleven, há uma lacuna a ser preenchida no
atendimento aos pequenos empreendimentos. Para ela, as grandes adquirentes
pecam por falta de agilidade e de proximidade com o cliente. Entre as promessas
da companhia, que admite que “não quer competir com as grandes”, está oferecer
a máquina de cartão em até dois dias após o pedido inicial.
– Os
novos adquirentes estão se posicionando agora. Já teve uma evolução
considerável. Muitos deles começaram em 2011 e 2012, e agora conseguem ter uma
relevância maior. O foco da Payleven não é competir com os grandes. É no
negócio que tem um faturamento abaixo de R$ 15 mil por mês – afirma Adriana.
ELAVON:
TAXA MENOR PARA COMPENSAR FALTA DE BANDEIRAS
Outro
nome novo no mercado, a Elavon começou a operar no Brasil em agosto de 2012,
mas firmou a presença em maio do ano passado. Parceira do Citibank, a companhia
também concentra boa parte dos esforços para atrair os pequenos negócios. Um
time dedicado é responsável por vender especificamente aos pequenos
empreendimentos, inclusive oferecendo a máquina a estabelecimentos que já
alugam equipamentos concorrentes.
Foi o
que aconteceu com a empresária Ana Maria Elias, dona da loja de roupas Kampala,
em São Paulo. Há um ano, ela acabou optando pela Elavon, que, na época,
oferecia taxas mais baixas que as cobradas por Cielo e Rede. Ela conta que
chegava a pagar 3,65% no crédito quando usava as duas máquinas, e, com a
Elavon, reduziu o custo para 2,91%. A contrapartida foi perder o acesso a
algumas bandeiras, que têm parceria com a Cielo, como American Express e Elo.
–
Percebi que quem tem Amex (American Express) normalmente tem outros cartões. Já
a Elo é mais usada para débito, então, quando a pessoa vinha com o cartão,
oferecia desconto no dinheiro. Vi que ia perder com menos bandeiras, mas ganhar
no valor de taxa de administração – conta Ana Maria.
No
Rio, Carlos Vianna, dono do restaurante Pistache, em Botafogo, Zona Sul do Rio,
também foi abordado pela equipe da Elavon, mas preferiu manter a máquina da
Cielo.
– A
Elavon hoje pratica as melhores taxas, mas não tem todas as bandeiras. Não
atende American Express, Visa Vale e outras cartões de alimentação. Trabalho
com a Cielo há 15 anos e com a Elavon desde o ano passado – afirma o
empresário.
CIELO:
1,3 MILHÃO DE CLIENTES SÃO PME
Os
acordos que ainda permanecem, mesmo com a abertura de 2010, são vistos hoje
como um dos principais obstáculos para garantir maior concorrência no setor. A
expectativa do mercado é com um projeto do Banco Central que deve regular a
chamada interoperabilidade de bandeiras, ou seja, fazer com que todos os
adquirentes possam trabalhar com todas as bandeiras.
– Hoje
se encontra pequena e média empresa com três maquininhas, cada uma passa uma
bandeira. O lojista tem que ter três linhas dedicadas e paga três aluguéis.
Isso é um absurdo, em lugar nenhum do mundo temos isso. Gera um custo que pode
chegar a mais de R$ 300 por mês – destaca Pedro Coutinho, do GetNet, serviço do
Santander que tem 6% de participação de mercado.
Segundo
o executivo, o serviço nasceu com o foco em pequenas e médias empresas. A
mobilidade também é um dos atrativos nos quais a empresa investe: dos 400 mil
clientes ativos da companhia, 100 mil são usuários do dispositivo que acopla o
leitor de cartão ao celular.
Apesar
da entrada de novas empresas, o setor ainda é liderado com folga pela Cielo. A
empresa, que tem como maiores acionistas os bancos Bradesco e Banco do Brasil,
respondeu por 54,6% do volume de transações do segundo trimestre, segundo dados
da Abecs e do balanço financeiro da companhia. Mesmo com clientes maiores, a
empresa diz que o foco principal para o crescimento são as pequenas empresas.
Hoje,
a Cielo tem cerca 1,5 milhão de clientes ativos, dos quais 1,3 milhão são micro
e pequenas empresas. Em relação ao faturamento, no entanto, as grandes empresas
ainda respondem pela maior fatia, percentual não revelado pela companhia, que
restringe o acesso a algumas informações, por ser de capital aberto.
– É
o portfólio que mais cresce, principalmente do ponto de vista de novos
clientes. Os novos clientes entram nesse segmento. A maior parte dos comércios
médios e grandes já estão no mercado – diz Eduardo Chedid, vice-presidente
comercial de varejo da Cielo.
Fonte: O Globo.