Em seu best-seller “O mundo é plano”, Thomas Friedman retrata, numa frase de um funcionário chinês, a estratégia da China, na sua escalada mundial: “Primeiro tínhamos medo do lobo, depois começamos a querer dançar com o lobo, e agora queremos ser o lobo”. Não dá para duvidar que consigam, dadas a velocidade e a abrangência dos avanços da economia chinesa. Para muitos setores da indústria brasileira, é coisa de apavorar. As mercadorias chinesas invadem o mercado, a preços incrivelmente baixos e com qualidade satisfatória. No início, eram só produtos de tecnologia tradicional, mas, depois, vieram também os eletrônicos e outras sofisticações. “Onde vai parar isso?” perguntam atónitos empresários, dos mais diversos ramos. Tudo indica que não vai parar e, ao contrário, que a alcateia chinesa tende a crescer em número e ferocidade.
Então, fazer o quê? Alguns falam em barreiras alfandegárias e salvaguardas, maldizendo o governo federal que, sem qualquer contrapartida, facilitou o ingresso da China na OMC. Outros, mais pragmáticos e com cacife suficiente, passam a comprar mercadorias e insumos dos lobos, e/ou a terceirizar com eles seus serviços, ou, ainda mais, vão dançar com eles, abrindo negócios offshoring, na própria toca chinesa. Quem está certo?
O certo é que o desafio não é só dos brasileiros. Até os poderosos americanos temem pêlos seus negócios e pêlos seus empregos, vendo mais e mais empresas suas partir para a terceirização e o offshoring, na China. Mas, ao mesmo tempo em que utilizam essas práticas, empresas americanas (e japonesas, também) põem ênfase nas inovações e evoluem para estágios tecnológicos superiores, produzindo bens e serviços que podem vender aos chineses, por preços relativos compensadores. (A dúvida que permanece é: até quando poderão manter essa dianteira tecnológica e inovadora?). E os brasileiros? O nosso drama, que parece não ser percebido pêlos mentores da macroeconomia nacional, é que nos não temos a dianteira tecnológica americana, a japonesa ou, em menor medida, a dos europeus desenvolvidos. Hoje, exportamos para a China commodities, cujo valor de troca fica sujeito às oscilações do mercado, com tendência histórica de baixa. E importamos manufaturados e componentes industrializados, numa escala que já sinaliza a inversão da balança comercial (segundo a AEB, de um saldo de US$ 21 milhões, favorável ao Brasil, no primeiro bimestre de 2005, passamos a um superavit de US$ 124 milhões, a favor da China, no primeiro bimestre deste ano). Quem vai ganhando a dianteira é a China…
Essa dança não vai dar certo, para o Brasil.
Além da correção da distorcida política de juros, cujos danos se amplificam por sua decisiva influência na apreciação do real, é imprescindível uma guinada para a inovação, como diretriz estratégica de nosso desenvolvimento. Precisamos fomentar os investimentos em P&D e a maior integração entre as instituições de pesquisa e o setor produtivo, bem como apoiar mais as pequenas empresas de base tecnológica. Isso não significa que devamos desprezar as atividades que sustentam a economia brasileira e o nosso mercado de trabalho. Mas, é preciso, de um lado, assumir novos e mais abrangentes desafios tecnológicos, que englobem o leque de negócios com potencial de expansão, como as TIC (tecnologias de informação e comunicação), os novos materiais, a nanotecnologia e as ciências da vida, com destaque para a biotecnologia. E, de outro, realizar, com realismo e determinação, a tão esperada modernização da reforma trabalhista, a fim de impedir que os equívocos idealistas que comprometeram a competitividade europeia, continuem a inibir investimentos em nosso País, matando empregos e aumentando a vantagem comparativa da China sem leis sociais. Então, talvez possamos dançar com os lobos chineses. Mas a escolha da música será nossa.
Autor: Dagoberto Lima Godoy – Diretor-presidente da Caixa/RS – Fomento Econômico e Social
E-mail: godoy@terra.com.br
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