– Moço, por favor, onde é a “tal” da lotérica?
– Logo ali. Duas quadras à direita e depois dobre a primeira rua à esquerda. O senhor verá um luminoso bem grande: “Lotérica”. Porque o senhor está tão ansioso? O senhor está “bufando”. Vai trocar dinheiro? As lotéricas hoje em dia até fazem, em alguns momentos, o papel de banco. Mas elas não têm a segurança de uma agência bancária…
– Não. Nada disso. Preciso uma lotérica com alguma urgência.
– Urgente? Lotérica? Posso saber o motivo?
– Não. Não é nada importante. Só que eu preciso urgentemente da Lotérica…
– Bem, então vá conforme eu lhe expliquei… O senhor está de carro?
– Não. Não tenho carro.
– Posso lhe dar uma carona?
– Não é preciso. Muito obrigado.
E o senhor apavorado seguiu a passos largos as orientações dadas pelo transeunte.
Dobrou as ruas e chegou finalmente na “tal” de Lotérica. “Bufando” de cansaço e de ansiedade.
– Por favor, seu moço, é aqui que se troca “bilhete” premiado?
– Sim. O senhor tem algum para trocar?
– Algum/
– Sim, algum pedaço de bilhete ou ticket das lotéricas oficiais?
– Moço eu “ganhei”… Ganhei!!!
– Certo. Ganhou o que?
– Ganhei a Mega-Sena. Aquela que acumulou 30 milhões de reais. Ganhei sozinho…
– Parabéns! Parabéns! Posso ver o ticket? Preciso conferir.
– Que ticket?
– Ora, moço, o ticket que o senhor jogou.
– Os números não são 30, 42,… 37?
– Sim, são estes. Porisso eu necessito ver seu ticket.
– Então eu ganhei! Ganhei!
– Mas onde está o ticket?
– Moço vou ter um “troço”… Vou desmaiar… Joguei o ticket no vaso sanitário do banheiro e puxei a descarga. E agora?
– Bem agora, tenho que lhe dizer que infelizmente o senhor não é um feliz ganhador. Não ganhou o prêmio…
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– Marisa, Marisa, e agora…
– E agora, o que marido? Para de me beliscar. Para de gritar. Acorda e vá trabalhar…
– Então eu sonhei?
– Sim, você estava sonhando e gritando. Aos berros… São 7 horas e você tem que trabalhar. Vá logo senão vais perder o trem e chegará tarde no serviço.
– Então eu não coloquei fora o ticket da mega sena?
– Claro que sim. Você foi à Lotérica e conferiu e notou que os números que jogaste não eram os sorteados. Aí então você ficou furioso, como sempre, e colocou no vaso do banheiro.
– Menos mal que eu não ganhei… Imagina só o que seria de mim se o sonho fosse verdadeiro…
– O que seria de nós!
Como é bom sonhar… Como é bom acordar com um sonho de “mentirinha”.
Que alívio!
– Já vou me vestir e ir ao trabalho. Isso não é sonho. É realidade…
Autor: David Iasnogrodski – engenheiro, administrador, escritor
E-mail do autor: david.ez@terra.com.br
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