“É na educação dos filhos que se revelam as
virtudes dos pais.”
(Coelho Neto)
Eles
já gritaram com você e te colocaram de castigo. E lhe proibiram telefonemas,
som e computador.
Também já brigaram com você para tomar banho,
arrumar o quarto e fazer as tarefas escolares. Já lhe fizeram comer ervilhas,
quiabo e jiló, quando você preferia batatas fritas, refrigerante e bolo de
chocolate.
Já desligaram a televisão no último capítulo do
filme, o videogame quando o recorde estava para ser batido e fizeram você
voltar da festa mais cedo, bem quando aquele beijo estava por acontecer…
Eles também já opinaram sobre seu presente e seu
futuro, questionando algumas de suas amizades, desdenhando de seus namoros e
sugerindo opções de carreira para sua vida profissional.
E por conta de tudo isso você já lhes respondeu em
alto e bom tom de voz. Talvez até já os tenha ferido com xingamentos e gestos
obscenos.
Você já bateu com a porta na cara deles, já fez
greve de fome e de silêncio, já prometeu fugir de casa, depois sair de casa e
depois sair da vida deles.
Já lhes disse não querer e não precisar de
opinião, pois você sabe o que deseja e faz. Já os chamou de caretas,
ultrapassados, antiquados, atrasados, fracos.
E por inúmeras vezes proferiu a frase: “Vocês não
me entendem mesmo!”.
Daí um dia você desperta e percebe que bom sono e boa alimentação fizeram de
você uma pessoa mais saudável. Que disciplina e estudo contribuíram com seu desenvolvimento.
E que alguns de seus amigos não eram tão amigos assim…
Descobre que idealismo demanda muito esforço e
ação para se tornar realidade. E que a experiência é como uma lanterna que
desfere um facho de luz que, vindo de trás, ilumina o caminho que se tem
adiante.
Neste dia, você descobre que amadureceu. E começa
a entender que eles não eram caretas, mas comedidos; antiquados, mas
experientes; fracos, mas precavidos.
Então, começa a enxergar que eles já pegaram você
no colo quando chorou e já lhe estenderam a mão para atravessar a rua para ir à
escola – ou para subir as escadas após o porre de uma noite infeliz.
Percebe que não lhe faltaram roupas para acalentar
o frio, ervilhas e também batatas fritas para lhe saciar a fome, medicamentos para
lhe proporcionar a cura, livros e cadernos para lhe promover o conhecimento. E
carinho, afeto e afago para lhe nutrir de virtudes, moldar-lhe o caráter,
ungir-lhe de compaixão.
Talvez você se dê por conta disso tudo no dia em
que for deixar de conviver sob o mesmo teto, seja em função de estudos, de uma
oportunidade profissional ou simplesmente porque vai casar-se. Ou talvez você
nunca se dê por conta disso tudo…
Mas espero apenas que você possa refletir a este
respeito. E que possa fazê-lo enquanto ainda houver tempo para ao menos
agradecer a eles, pessoalmente. A eles, seus pais.
Por Tom Coelho.