Dá onde será que nasce a loucura? É interessante notar que muitos dos grandes filósofos eram meio malucos, tinham vidas desequilibradas, eram reclusos, não conseguiam ter e manter uma família e alguns até piraram de vez.
O conhecimento profundo que tinham sobre a realidade e a habilidade intelectual que possuíam não se mostravam suficientes para gerenciar a vida num espaço de harmonia e bem estar. Todos os grandes filósofos foram atormentados por um ou outro tipo de angústia. A frustração com a raça humana aparece em mais de uma reflexão filosófica e o desalento é muitas vezes o tom de seus discursos.
Deve ser mesmo difícil conseguir enxergar o véu de ilusão que se abate sobre a humanidade e ver a crueldade e a injustiça serem praticadas impunemente, sem poder transformar nada. É de enlouquecer qualquer um quando o discernimento leva a uma compreensão maior e se percebe o quão dura a realidade pode ser.
A estupidez humana sempre foi um ponto de dor para muitos filósofos e suas conseqüências consideradas o pior dos males sobre a face da Terra.
Será então que o caminho do saber deve ser evitado? Conhecer pode nos levar a um estado de dor moral? Estudar a realidade pode nos conduzir à loucura? Pelos exemplos dos filósofos poderíamos dizer que sim, mas estes não foram os únicos a trilharem o caminho do conhecimento, há também os sábios.
Não se conhece nenhuma história de algum sábio que tenha enlouquecido, apesar de compreender a profundidade da ilusão e loucura humanas. Ao contrário, estes foram os seres que proporcionaram maior lucidez a todo o processo. Buda, Lao Tsé, Jesus Cristo, Francisco de Assis, Tereza de Ávila, Mahatma Gandhi, Francisco Xavier, Tereza de Calcutá, entre outros, são exemplos de uma outra forma de compreensão e conseqüente ação no mundo.
É interessante notar que todas essas figuras de grande relevância na história humana não têm seus ensinamentos estudados nas escolas de liderança mundo afora, apesar de serem os maiores exemplos de líderes. Enquanto que filósofos com vidas desequilibradas são a referência inconteste.
É claro que há muito a aprender com os filósofos, mas é preciso ir além deles, porque as respostas ou o conhecimento que eles amealharam não foram suficientes para dar conta de viver de bem com a vida.
É preciso verificar as estratégias de cada grupo em relação ao conhecimento para perceber qual o processo que mais resultados proporciona. Os filósofos enlouquecem porque querem mudar o mundo. Não conseguem conviver com a realidade que enxergam a partir do conhecimento que adquirem. A sensibilidade dada pela compreensão da realidade é como um nervo exposto. Eles têm conhecimento, mas sofrem por conseqüência disso.
Os sábios transcendem por aceitarem o mundo como ele é. O conhecimento os leva à compreensão da realidade, mas há um elemento importante que é adicionado ao saber, a compaixão.
O amor que o sábio deposita sobre cada outro, porque compreende que qualquer falha é fruto de um estado de consciência ainda não burilado, é que lhe permite ver em todos o potencial para transformar-se. Os sábios são otimistas em relação à humanidade, enquanto que os filósofos são céticos.
A aceitação incondicional da condição humana é a base onde os sábios, ao longo da história, conseguiram construir seu legado para a evolução da consciência. Já os filósofos foram juízes implacáveis consigo mesmos e com o próximo, levando-os a um estado de conflito que desencadeava o desajuste em que a maioria viveu.
Precisamos compreender que o caminho da elucidação, do conhecimento intelectual, do exercício puramente mental não é suficiente, pois isto é apenas parte da jornada.
Como humanidade é chegado o momento de aprendermos a trilhar o caminho da iluminação, onde o conhecimento intelectual é temperado pelo exercício emocional, onde a compaixão e o amor incondicional nos permitem dar o salto a um outro nível de realidade.
Iluminar-se não é uma condição restrita aos santos, é uma possibilidade dada a qualquer ser humano. A iluminação não é uma condição de afastamento, como fizeram os filósofos, mas de aproximação, como nos mostraram os sábios. Iluminar-se é fazer hoje tudo o que já fazíamos ontem, mas com outro nível de consciência, portanto é um processo diário. A única coisa que precisamos lembrar é que a iluminação é o produto de uma mente acordada gerida por um coração sensível. Este é o nosso desafio.
Por Dulce Magalhães.