É da Babilônia, Ásia Menor, junto aos rios Tigre e Eufrates a formação de uma obra-prima da literatura: o Gilgamesh. O poema é um épico. O herói, soberano da I dinastia de Uruk faz parte de reinados longos e fantasiosos. Em todos foi registrado um fato de centro: o dilúvio. A passagem dessa cultura é do IV milênio a.C. A referência àqueles foi antes e após o episódio.
A escrita dos Hebreus, aperfeiçoada da tradição oral, culminou nos cinco primeiros livros do Antigo Testamento,o Pentateuco. No Gênesis, o Deus Semita ‘Iahweh’, anuncia o dilúvio. Há indicações do mesmo acontecimento percebido nas civilizações quanto ao enfoque da escolha de união divina. Gilgamesh é pedido em casamento pela deusa Ishtar a um mundo ideal. O Gênesis abomina a ‘hieros gamos’, tentativa de reunir o divino e o humano. Ao rompimento das fontes do grande abismo e abertura das comportas dos céus, um aviso dos céus, talvez mais forte: a ordem para feitura da arca, o barco que vagaria sobre as águas da terra a ser inundada.
A construção da nau foi instruída com medidas e preceitos. Pronta, sucedeu a escolha dos pares da mesma espécie para habitá-la. Enfrentar o drama, chuva torrente nos 40 dias e 40 noites permite divagar: as águas não caíram de uma vez. Sigmund Freud, numa biografia sobre músico erudito é citado: ‘em todo mito há um átomo de verdade.’
O planeta ficará mais quente e faminto em dez anos. É aos poucos a degradação. Acontece em fragmentos o desmoronar, a ceifa de vidas mercê à persistência dos equívocos da sociedade ou da falha humana, inundadas no segundo dilúvio em formação, mesmo guindados às ciências de controle. Não basta a luta e resistência às ideologias políticas radicais ou à economia desmantelada; a natureza furiosa reprisa catástrofes, uma após a outra, seguidamente. Decide a sorte humana. Indiscutivelmente, ao que parece.
Por Nei Rafael Filho