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O trigo e a alimentação dos brasileiros

Nos últimos dez anos o consumo mundial de trigo cresceu 11,6%, enquanto a população global aumentou em 13,4%. O mesmo ocorre entre nós, com um crescimento vegetativo ou mesmo inferior ao da população. Será que vivemos uma estagnação no setor? Parece que sim, pois as estimativas do órgão americano especializado em agricultura (USDA) são de um aumento similar (11,4%) nos próximos dez anos.


Por que está ocorrendo essa estagnação se os principais produtos de derivados do trigo – pães, massas e biscoitos – são de consumo cotidiano tanto no Brasil como na maior parte dos países? Existem várias razões que explicam porque o consumo de farinha de trigo e de seus derivados vem crescendo pouco. Não existem produtos alimentícios que concorram com os derivados do trigo em preço e qualidade, mas há muitas pessoas que evitam consumi-los, pois se criou o mito de que pão e massas engordam e por isso não fazem bem à saúde. Essa é certamente uma das razões da estagnação. Estudos recentes mostram que, pelo contrário, os italianos são um dos povos mais saudáveis do mundo, pela sua dieta, que inclui uma larga proporção de derivados de trigo.


Outro importante motivo dessa baixa expansão é, provavelmente, de responsabilidade de nosso setor, um dos segmentos industriais mais antigos do mundo e, portanto, um pouco conservador. Assim, os hábitos dos consumidores mudaram mais rapidamente que a cadeia de produção e beneficiamento do trigo: hoje o consumidor quer produtos práticos e saudáveis (mais fibras, menos calorias), com embalagens modernas e fracionadas, que ele dificilmente encontra. Produtos como os pães “longa-vida” ou com maior teor de fibras, e o uso de embalagens práticas ainda são exceção, embora vivamos um período de inovações na oferta.


Farinhas de trigo, pães, massas e biscoitos têm como mercado-alvo principal as pessoas saudáveis, mas são usados também em algumas fórmulas destinadas aos doentes, pela facilidade de absorção. O que tem faltado para ampliar o consumo é provavelmente uma ação mais pró-ativa do setor, tanto no Brasil como no exterior, mostrando que o trigo foi o alimento das mais importante civilizações, desde os sumérios, babilônios, assírios e egípcios, aos gregos, romanos e árabes, até chegar aos nossos tempos. Isso porque o trigo tem uma combinação ótima de carboidratos e proteínas essenciais.


Outro aspecto importante é a existência de vários tipos de trigo, cada um deles adequado para uma diferente categoria de produto, e essa diferenciação não tem ocorrido na compra, particularmente quando ela é feita de nosso principal fornecedor, a Argentina. É preciso que tanto na Argentina, como no Brasil, cuja produção vem crescendo, se adote a política de segregar os diversos tipos de trigo para atender da forma ideal às diferentes aplicações.


Assim, no Rio Grande do Sul, em função do solo e clima, a produção é principalmente da variedade soft, a mais indicada para biscoitos, mas não adequada a pães e massas. Com o aumento da produção desse tipo de trigo, a oferta já atende a toda a demanda nacional e há excedentes para a exportação. A Argentina nos fornece o trigo hard, mas como ele não vem segregado, os moinhos precisam acrescentar à farinha aditivos e enzimas que garantam um conteúdo adequado à alimentação. Esse problema vem da história, pois a comercialização era feita com base numa mescla de trigo, sem a preocupação de diferenciar as variedades. Ora, a mescla padroniza por baixo a qualidade e naturalmente o preço.
Por essas razões, a indústria de trigo no Brasil e os fornecedores da Argentina vêm buscando fortalecer sua parceria de longo prazo, estimulando a segregação do trigo, para que cada comprador receba as variedades mais indicadas para uso no produto final. Com isso vamos poder oferecer ao consumidor pães, biscoitos e massas mais variadas e com as características ideais para cada tipo de exigência alimentar e de gosto, ampliando nosso mercado. E, além disso, estaremos reforçando os laços do Mercosul, com nossos irmãos argentinos.


Autor: Samuel Hosken – Presidente da Abitrigo – Associação Brasileira das Indústria do Trigo.


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