Aliás, a responsabilidade do procurador de sociedade limitada em atos societários, fiscais e trabalhistas tem causado bastante preocupação. Em tese, o mandatário só será responsável quando agir de maneira irregular. “O princípio básico é que só será responsável quando agir errado”, explica o advogado Fábio Soares de Melo, do Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr e Quiroga Advogados. “Tendo em vista a atuação do procurador em conformidade e dentro dos limites dos poderes a ele conferidos por meio do contrato de mandato, há uma impossibilidade de responsabilidade do procurador de sócio de sociedade limitada, seja em âmbito societário, fiscal ou trabalhista”, esclarece o advogado.
No entanto, apesar de existir uma base legal contra essa responsabilização, não é isso que está ocorrendo na prática. “Desde que foi criado, há cerca de dois anos, o cadastro para CPF ou CNPJ de estrangeiros que pretendem investir no País surgiu essa insegurança”, comenta a advogada Silvania Conceição Tognetti, do Barbosa, Müssnich & Aragão. “Na ocasião, a Receita foi consultada sobre a possibilidade de responsabilização dos procuradores e garantiu que tratava-se apenas de um procedimento formal”, complementa a advogada. “Quando foi instituída a obrigação, a Receita dava ensejo que o procurador responderia pelo sócio. Depois isso ficou restrito a prestar a declaração cadastral”, comenta o advogado José Paulo Bueno, do Araújo e Policastro.
A preocupação inicial dos advogados tinha fundamento. O problema está na hora em que o estrangeiro é réu em uma ação. Nos casos em que não é possível localizar o administrador responsável na hora da execução, o procurador é acionado. Na maioria das vezes, os dados do mandatário são encontrados nas juntas comerciais. Com os dados e um mandado de execução, há a possibilidade de bloqueio de bens do acionado. Além disso, ele poderá ter o CPF cancelado e todas as implicações causadas por um processo que chegou à fase final. Há casos de procuradores que só souberam que a ação estava em andamento quando teve sua conta bancária bloqueada.
Especialmente com o sistema de penhora on-line, que vale para Justiça do Trabalho e que pode ser implementado também no caso de tributos, os procuradores de sócios estrangeiros devem ficar ainda mais atentos. Segundo ele, para se precaver de possíveis problemas é importante agir dentro dos limites do que está previsto no contrato. “Para o procurador que atua na qualidade de sócio, pode ocorrer a responsabilização. Os que têm poderes limitados e restritos não podem ser responsabilizados pelas obrigações da sociedade”, comenta José Paulo Bueno.
Além disso, lembra Fabio Melo, o procurador não deve participar da gestão da empresa. “E se tiver problemas na Justiça devido a dívidas do sócio estrangeiro, há mecanismos jurídicos de defesa”, garante.
Já as pessoas que deixaram de ser procuradoras devem ter cuidados extras. “Ao renunciar a procuração, o certo é registrar isso para evitar problemas futuros”, comenta a advogada Celina Pannunzio, do Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr e Quiroga. Ela lembra que, como os dados são pegos nas juntas comerciais, pode ocorrer da pessoa não ser mais procuradora e mesmo assim constar nos documentos do órgão.