Depois do aumento da Selic, em 20 de outubro, os setores produtivos voltam a se preocupar com as projeções relativas à taxa, que deve encerrar 2004 em 17,50% ao ano, segundo analistas de mercado consultados pelo próprio Banco Central. A estimativa de elevação de 0,5 ponto percentual este mês – confirmada – e mais 0,25 em dezembro conspira contra a comemorada tendência de crescimento. O mais grave é que, conforme têm alertado empresários e as mentes mais lúcidas da economia, a estratégia dos juros mostra-se ineficaz contra a inflação, considerando a curva ascendente dos preços e a previsão das instituições financeiras, de que custo de vida medido pelo IPCA fechará o exercício em 5,90% e ficará em 7,20% em 2005. Independentemente do louvável esforço do governo para segurar a inflação, a verdade é que o tradicional mecanismo monetário dos juros parece ter-se esgotado de forma inexorável como modelo eficaz, conforme também se nota em outras nações. Esta ortodoxa ferramenta, somada aos altos impostos e à disponibilidade de crédito para investimentos aquém da demanda potencial do empreendedorismo no País, engessa a economia e circunscreve a performance do nível de atividades a fatores muito mais conjunturais do que estruturais.
Desde o Plano Real, ao mérito inegável dos preços domados assiste-se à contrapartida da significativa transferência de recursos da produção para os setores estatal e financeiro. Assim, o empenho heróico do governo no sentido da responsabilidade fiscal acaba tendo pífio efeito prático no tocante ao crescimento econômico. Exemplo: apesar do expressivo superávit primário de 4,3% do PIB em 2003, o nível e a proporção da dívida estatal aumentaram. No ano passado, o governo pagou a bagatela de R$ 150 bilhões em juros, mas a dívida líquida do setor público já resvala em quase 60% do PIB. Esta equação repete-se na década: os agentes produtivos pagam caro para manter a economia equilibrada e financiar a dívida, mas não levam para o chão de fábrica o alento da expansão das atividades e da criação de empregos. É inútil continuar contrariando a mais simples e objetiva lei do capitalismo: a melhor solução para evitar a alta de preços é o estímulo aos investimentos, visando ao aumento da oferta e da produção, criando mais empregos.
Autor: Paulo Skaf – Presidente da Fiesp
E-mail do Autor: marina.bueno@viveiros.com.br
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