Em alguns dias tenho a impressão de que estamos secando interiormente. Digo isso diante de tanta insensibilidade e frieza que vejo. Até para as coisas mais corriqueiras do nosso dia-a-dia falta-nos um pouco mais de delicadeza. Tenho a sensação de esvaziamento nos relacionamentos entre as pessoas. Falta-nos bondade, afeto. Compaixão.
Entendo que nós temos o direito de algum dia estarmos de mal com o mundo e a vida, pois sofremos inúmeras pressões e afinal de contas somos gente. Gente que pensa, que sente, que pode não ter sensibilidade suficiente para compreender o que parece ser tão compreensível, o óbvio. E esse nosso comportamento – ou melhor seria dizer mal comportamento – parece que acaba contaminando os outros visto tamanha falta de afabilidade e distanciamento entre as pessoas.
Na psicologia, sociologia ou filosofia certamente encontraria várias respostas. Quem sabe nenhuma delas totalmente compreensível. Entretanto, mais garantido é busca-las em nós mesmos. Tentar compreender toda amargura de quem passa forme por exemplo parece-me impossível. Encontrar respostas pelas oportunidades que não tiveram pode ser perigoso demais. Creio que muitos se calariam e correriam o risco de morrer diante do próprio silêncio. Mas para o resto, que explicações poderemos encontrar? O que justifica esse nosso comportamento? Parece que o individualismo nos castiga e nos torna prisioneiros de nós mesmos. Somos levados – mesmo que involuntariamente – a primeiro mostrar nosso lado perverso, depois o bom, que por certo é muito maior e melhor do que o ruim, embora um tanto quanto escondido. Parece que temos nossa visão ocultada. E esse nosso jeito “durão” de agir e se apresentar diante dos outros não nos leva a lugar algum, muito pelo contrário, só nos prejudica e nos afasta dos outros. Mundo mentido, mundo real. Não quero parecer um medidor de valores, mas penso que pode ser um bom momento para avaliarmos o papel dos costumes, do direito e da moral; a importância da imposição de limites aos nossos filhos e a forma como nos relacionamos com os outros. Precisamos ver o mundo de uma maneira diferente.
Talvez minhas palavras tenham sido árduas e rancorosas. Podem ter sido também somente reflexões aparentemente desconexas. Mas com certeza, foram escritos que não expressam o desejável, apenas a realidade. A realidade de que nossas vidas parecem secas.
Autor: Henrique Carvalho Kuhn
E-mail: hckuhn@terra.com.br
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